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Madame Bovary e a sociedade consumista

"Não há libertino, por mais medíocre, que não tenha sonhado com sultanas; todo tabelião guarda em si os despojos de um poeta."
Há algo de encantador e seduzente em Madame Bovary, por mais repulsiva que seja. Ao mesmo tempo em que aborda a temática da paixão e do amor proibido, a arrogância da personagem que dá nome ao romance de Gustave Flaubert por muitas vezes se volta contra o leitor, que se vê perdido nas mentiras causadas pela ilusão que se é criada a partir de sua percepção da sociedade. Com seu livro mais conhecido, Flaubert foi capaz de criar uma análise sagaz da França da época, mudando constantemente de cenário, passando pelo campo, pelas cidades, pelos camponeses, pelos nobres, pela burguesia e pelo clero. Contudo, o mais impressionante de "Madame Bovary" é o desenvolvimento constante das personagens, que nunca permanecem estáticas na narrativa, dando ao texto uma dinâmica saborosa e bem-estruturada, apesar de estarem sempre presos às convenções que as regem. 
  
Gustave Flaubert, escritor realista francês, autor de Madame Bovary.

O livro começa começa com uma cena cômica e, de certa forma, anunciando a crueldade daquele que a escreve. Carlos Bovary é retratado desde o início como uma figura patética e submissa, sendo ridicularizado pelos seus colegas no colégio. A partir desta cena, a estrutura familiar dos Bovary é apresentada; não como uma família ideal, aliás, longe disso, pois o que se vê é uma estrutura desordenada e frágil, tendo como base um pai que desfruta dos dotes recebidos pelo casamento sem qualquer preocupação com o futuro de seu filho ou de sua mulher; e a mãe frustrada que idealiza em Carlos a esperança do fim de suas mágoas e pesares. No entanto, tal formação torna-se responsável pelo surgimento de uma criança insegura e dócil, completamente submissa e fraca.
Por meio da caracterização da personagem, Flaubert cria em Carlos Bovary a caracterização do francês inseguro, fator que impulsionaria o futuro da narrativa, identificando desde o princípio o caráter de quem viria a ser um esposo despido de ciúmes ou qualquer apego pela paixão carnal.
Devido à forte insistência da mãe, Carlos renuncia o lado boêmio do pai para se tornar responsável e acaba se formando em medicina. É interessante o trato que dá Flaubert aos suas personagens que seguem a carreira baseada na ciência; uma vez que todas se tornam ou completos imbecis e submissos ou apenas soberbos e arrogantes, da mesma forma como é feita por Machado de Assis em "O Alienista", cuja análise já fora feito pelo blog (Acesse aqui). Pois bem, a partir de mais uma interferência da mãe, Carlos casa-se com uma viúva que se diz rica, apesar de que, após o encontro com Ema, descobre-se a farsa por trás da mulher, que morre humilhada com a descoberta de suas falsas riquezas e seu dote vazio.
Antes de passar para a perspectiva de Ema, que já estava acostumada com o médico devido ao tratamento que fora realizado em seu pai, gostaria de frisar um pequeno detalhe que irei sustentar minha linha de raciocínio. Perceba, exímio leitor, a sutileza de Flaubert ao narrar a morte da primeira esposa de Carlos Bovary. No fim do capítulo, o viúvo, ao pensar em sua vida com a mulher, sente-se traído pelas finanças, ao mesmo tempo que pensa: "Ao menos ela me amava." Essa frase será recorrente em toda a história, apesar de não mais aparecer na prosa. O dilema responsável pelo sentimento de Carlos ronda dois elementos: O amor, logo, o compromisso; e o dinheiro; a luxúria. Em outras palavras, a temática que se almeja neste texto não é outra senão realizar uma comparação entre o valor sentimental e o material, mostrando ao leitor aquilo que a sociedade verdadeiramente almeja.
O último dia na Casa Velha, de Martineau, retratando a luxosidade da burguesia no século XIX.

Em paralelo à trajetória de Carlos, Ema, futura esposa do filho Bovary, estudava em um internado. Ao ter em sua vida cotidiana os hábitos e costumes sacros, Ema, ao voltar para o campo, junto ao seu pai, leva consigo ideais de pudor e de bom costume. Dessa forma, a história caminha para o encontro fatal entre o bom médico casado e a filha do camponês. Portanto, ao tornar-se viúvo, Carlos logo pede a mão da camponesa linda, casta e delicada.
O relativo estado de felicidade que se instaura no casal é o reflexo da comunhão entre mulher e marido, ambos devotos e amantes. No entanto, a estupidez de Carlos incomodava de fato Ema, que se compadecia do esposo pela gratidão que sentia.
Contudo, a paz é abalada por intermédio do baile do marquês d'Andervilliers, que convida o casal a participar de uma festa da nobreza. Após luxuoso evento, o desejo pelo material rompeu a paz do casal Bovary. Os acessos exuberantes de Ema por tudo que é chique e recente na capital despertaram nela um vazio existencial que passou a ser suprido apenas pelos artigos caros e de luxo fornecidos pelos comerciantes que viam em sua fraqueza oportunidade de lucro. Para explicar tal fenômeno, trago a "Era do Vazio", de Lipovetsky. O termo foi criado para descrever o Império do Efêmero dominante no final do século XX e no início do XXI, baseado na sociedade do hiperconsumo, onde o consumo fútil e imediato serve para preencher o vazio existencial causado nos indivíduos.
Lipovetsky, filósofo contemporâneo.

De certa forma, o mesmo ocorre com madame Bovary, que após ter a desilusão de uma vida perdida, busca conforto nos romances e no contemporâneo parisiense. Ao mesmo tempo, torna-se submissa aos costumes luxuosos, e se deparando com o que possui, adoece.
A partir de então, o livro evolui e cresce, abrangendo muitos outros detalhes. Certamente, ainda escreverei outros artigos devido ao fascínio que possuo desta trágica história, mas ao que tange este único texto, por escolha minha, não avançarei na trama.
Portanto, Madame Bovary passa muitas mensagens, mas uma delas fatalmente se destaca na sociedade moderna - o consumo. O consumo em si, talvez não seja de todo o mal. A questão aqui levantada é quando tal hábito se torna desculpa para preencher este vazio dentro de nós. Em verdade, todos possuímos nossos problemas, seja causados pela frustração, ou pela criação, talvez até seja pelo amor. No entanto, quando o material supera a demanda sensível, uma distorção é colocada em evidência. E essa distorção que é a causa principal de vivermos em uma sociedade tão fria, artificial e triste.

Texto de Lucas Barreto Teixeira

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