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O controle de massas pela ignorância

Há diferentes formas pelas quais um autor pode se expressar na literatura. O gênero fantástico, com suas incontáveis vertentes, estabelece uma realidade absurda, seja ela futurista ou mística, improvável ou verossímil, complexa ou simples, de modo com que um problema possa ser abordado de forma mais criativa, dinâmica e elucidativa. Nesse contexto, as distopias foram formadas a partir da percepção política e social de certos autores em relação ao seu tempo, em que governos tiranos cerceiam as liberdades individuais, questionar já não é mais permitido, a a vida se torna fútil e patética. Dentre a vastidão de obras que se apoiam nesse princípio, três clássicos da literatura não apenas definem o gênero como também estabelecem uma série de correlações entre eles, criando uma vasta e complexa crítica à sociedade de nossos tempos.
Da esquerda para a direita, Aldous Huxley, Ray Bradbury e George Orwell, respectivamente autores de "Admirável Mundo Novo", Fahrenheit 451" e "1984", livros abordados no texto.

A criação do Estado

Em "1984", de George Orwell, o autor descreve um governo totalitário, governado por um partido único e soberano, que controla os fatos pela manipulação de dados, distorcendo-os como melhor lhes convir, de tal forma com que a sociedade se torna refém da soberania do Estado. Por meio do terror, os cidadãos são domados, tornando-se incapacitados pela vigilância constante e pelo monopólio da violência. Dessa forma, não há como refletir ou pensar nesse ambiente, visto que a verdade a todo instante é substituída por outra, gerando uma espécie de dependência entre os indivíduos e o governo. Assim, uma vez sem a consciência e a capacidade de pensar, não há individualidade na sociedade, apenas uma grande massa ignorante, dependente de falsos fatos, cativas do Estado.
Entretanto, não apenas pelo medo a massa ignorante pode ser controlada. Em uma sociedade repleta de futilidades, em que o prazer artificial dá a impressão de felicidade aos indivíduos, e cada indivíduo é identificado por uma identidade vinculada à comunidade, e não a si mesmo, o Estado pode se tornar igualmente opressor, embora utilizando-se de diferentes artifícios. E é assim que Aldous Huxley descreve sua sociedade distópica de "Admirável Mundo Novo".

A vida em sociedade

Se há um consenso de que a felicidade deve ser alcançada, pode-se dizer de que a política de bem-estar social ideal seria a de tornar todos os indivíduos em pessoas mais felizes e leves. O romance de Huxley, contudo, apresenta ao leitor uma perspectiva problemática quanto à situação. Se, por um lado, o consumo da droga "Soma", de prazeres sexuais e de cultura de massa possibilita uma existência mais fácil de ser suportada, por outro a vida passa a perder qualquer tipo de propósito ou sentido. Afinal, sem a liberdade do livre pensar, quando tudo o que possa ser descoberto é implantado em um sistema educacional padronizante, em que a arte a filosofia perdem sua importância para dar espaço a uma indústria cultural de futilidades, tudo passa a ser demasiado artificial e distante da realidade.
A vida em sociedade, portanto, torna-se suportável por todos serem iguais perante a identidade de massa, não existindo qualquer tipo de divergência entre indivíduos de mesma casta. Além disso, por conta do trabalho repetitivo e maquinal, sempre voltado à manutenção do Estado, a todo instante os indivíduos são condicionados a se convencerem de que não há nada melhor como a realidade em que vivem. Tanto o é que as sociedades marginalizadas, consideradas selvagens, com um sentido de comunidade mais voltado à sobrevivência do que ao bem-estar social, e que diferentes indivíduos realizam diferentes funções e apresentam diferentes características, existem apenas para estabelecer um contraste entre o natural e o artificial - o primeiro mais árduo, e o segundo mais fácil.
Contudo, Ray Bradbury, em Fahrenheit 451, constrói sua distopia com algo mais perverso e cruel do que a tirania de Estados totalitários que domam a massa. Para o autor, a ignorância, elemento sempre presente na raça humana, chega em um ponto tal em que a própria massa escolhe se alienar, criando, ela mesmo, artifícios para permanecer controlada.

O extermínio do livre pensar

Guy Montag é um bombeiro. Sua função, ao contrário do que se deve pensar, é atear fogo em livros ocultos pelos poucos que ainda ousam desafiar a massa. Agindo por meio de denúncias, apenas de noite, criam um verdadeiro espetáculo de cores e cheiros ao encharcarem pequenas bibliotecas individuais com querosene para, posteriormente, iluminarem o céu estrelado com as chamas voláteis e escandalosas. Junto com os livros, seus proprietários muitas das vezes escolhem simplesmente serem engolidos pelas chamas, ao julgarem que uma vida sem a companhia da leitura e do pensar é pior do que uma morte longa e dolorosa, alvo de curiosidade mórbida dos cidadãos, ansiosos pelo próximo espetáculo a ser anunciado.
O fogo é simbólico de muitas formas no romance de Bradbury. Ele representa o extermínio, o fim, o selvagem, a desumanização. Ao queimar-se um livro, queima-se o autor, suas influências, seus leitores, sua vida inteira, levando-o ao reino do esquecimento. Assim como em 1984, queimar é esquecer, e esquecer é distorcer a verdade. No entanto, não é o Partido de Orwell que decide a verdade ou não. Na verdade, a própria sociedade, a partir da cultura de massa, passou a desprezar qualquer tipo de erudição, o que pode ser visto como um tipo de temor aos indivíduos capazes de refletir por meio das artes. Cada vez mais, as inúmeras minorias sentiram-se insatisfeitas, iniciando boicotes destinados a tudo que lhes era inconveniente, valorizando uma cultura fácil e massificadora, tratando a todos como iguais, ignorando as diferenças entre as minorias. A evolução dessa indústria cultural se alastra, até se tornar soberana, pela própria vontade de uma massa que, agora, não se identifica com nada a não ser um misto de futilidade, propaganda e entretenimento. Com isso, a literatura e a filosofia foram criminalizadas, por serem possíveis apenas pelo livre pensar.
Se o pensamento e a reflexão causa um mal estar tão profundo, é apenas porque é mais fácil aceitar de bom grado todas as falsas verdades do que viver angustiado em busca de respostas existenciais. Dessa forma, a ignorância aqui começa na sociedade, de tal forma com que o autoritarismo seja uma expressão da própria massa, não de um Estado totalitário.

Controle

"Guerra é paz. Ignorância é força. Liberdade é escravidão."

Os dizeres da propaganda do Partido de 1984 são uma verdadeira síntese do que se disse até então. Quando em guerra, a sociedade se torna mais unida, simpática aos propósitos do Estado, mais obediente. Repletos de ignorância, a massa se torna mais forte, já que não questiona suas ordens, obedecendo-as cegamente. E, se livres, os indivíduos se tornam escravos de suas incertezas e de suas dúvidas.
No momento em que o Estado fornece todas as respostas, seja por medo, por prazeres artificiais, ou por uma cultura fútil, a massa ignorante é controlada, sem questionar mais identidade, representação e autoridade. Silenciado os poucos que ainda tem vontade de se expressar, em um grande espetáculo a ser vendido à massa, e entregando a ela qualquer tipo de certeza, por mais incoerente que ela seja, o Controle se perpetua, alienando a sociedade da forma como ela demanda. Nesse sentido, a única identidade possível passa a ser a identidade da massa, a identidade da ignorância, a identidade da desumanização.


Texto de Lucas Barreto Teixeira

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