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O sol na cabeça e a literatura marginal


“‘Ninguém nasce borboleta’, pensou Bruno. Depois disse baixinho: ‘A borboleta é um presente do tempo’.”
Em 2018, Geovani Martins entregou à literatura brasileira um imenso presente. Mais do que um excelente livro, com contos extremamente bem-trabalhados e reflexos da cidade do Rio de Janeiro, é uma obra que resgata diversos elementos característicos dos grandes escritores, enquanto dá voz a uma sociedade marginalizada. “O Sol Na Cabeça” tem tudo para ser considerado um expoente na literatura contemporânea.

Geovani Martins, autor de "O Sol na Cabeça".
Não é difícil entender a importância de um Geovani Martins nos dias de hoje, tanto no campo literário quanto no crítico e político. O que acontece em seu livro é a retomada de conceitos levantados por inúmeras escolas literárias, mas adaptando-os à realidade atual. Em uma rápida análise da literatura nacional, pode-se destacar uma eterna busca pela identidade nacional. Elemento central no romantismo, onde Escritores como José de Alencar buscaram representar, entre outros, a burguesia brasileira e os índios, dando a eles uma dimensão heróica, também foi fonte para o realismo e, principalmente, ao modernismo. 
No entanto, diferente do idealismo romântico, esses dois últimos descrevem uma sociedade defeituosa. O que Geovani Martins faz em seu livro não é diferente do que Aluísio de Azevedo fez em “o Cortiço” ou Manuel Antônio de Almeida em “Memórias de um Sargento de Milícias”. Em ambas as obras, é apresentada ao leitor a diferenciação das classes marginalizadas e elitistas, destacando a hipocrisia brasileira. 
Aluísio de Azevedo (1857-1913)

No romance de Aluísio de Azevedo, escrito após um período em que o autor morou, com o propósito de estudos, em um cortiço, o leitor acompanha a miséria de fato. As personagens são sempre retratadas como animais, como prega o naturalismo, vertente do realismo em que Aluísio se apega, enquanto vive, logo ao lado desses pobres, uma família rica que em diversas vezes se impõe sobre eles. Dessa forma, ele realiza uma crítica sagaz, apenas retratando uma cruel realidade negligenciada pela elite da época.

Manuel Antônio de Almeida (1831-1861)
Já Manuel Antônio de Almeida, ao invés de retratar a miséria extrema, escreve sobre os marginalizados em um período anterior ao de “O Cortiço”. Publicado com o pseudônimo de “um Brasileiro”, o livro aborda mais a hipocrisia da sociedade, tanto das elites tanto dos mais pobres, colocando-os todos em um mesmo conjunto de caluniadores, mentirosos e vadios. Com um tom sarcástico, o autor explora desde os ciganos até o  Vidigal, figuração do poder público, criticando as práticas religiosas carregadas de falsidade, os servidores públicos imprestáveis, o núcleo familiar e a sociedade como um todo.

Poderia citar ainda muitos outros exemplos para legitimar esse papel presente na literatura. Poderia falar sobre Lima Barreto, que escrevia sobre o viés do suburbano, ou poderia falar da Graciliano Ramos, que fala sobre a miséria do cárcere e dos sertões, que também foi abordado por Euclides da Cunha, especialmente ao escrever sobre “Antônio Conselheiro” e a Guerra de Canudos...
Mas o que importa é estabelecer um elemento central em nossa imensa e maravilhosa literatura. Dar a voz ao pobre e ao marginalizado é um exercício de humildade e amplamente realizado pelos grandes autores nacionais. Só que o feito de Geovani Martins é ainda mais louvável.
A partir da década de 1970, surgiu um fenômeno denominado “literatura marginal”. Nele, escritores e artistas das periferias começaram a tomar voz e a se impor no cenário cultural. Em seu próprio livro Martins faz menção, em um de seus contos, a um pichador e suas influências no conjunto de Rap: “Racionais MC”. Dessa forma, dando a voz a essa classe marginalizada, Martins, com extrema sensibilidade e retratando sua própria experiência de vida, não apenas resgata elementos primordiais da literatura nacional como também as evolui, como se um casulo tivesse se abrindo para uma borboleta que critica fortemente a sociedade vigente, que vive ainda mergulhada em um oceano de hipocrisia e de imensa desigualdade social. 
Por esses motivos e outros é que devemos prestigiar esses novos nomes da literatura. Por melhor que o passado seja, não devemos nos prender a ele, sendo necessária uma constante evolução de nossa arte, homenageando o anterior, melhorando o presente e construindo um futuro, tanto social como literário, melhor.



Texto de Lucas Barreto Teixeira

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