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As ameaças do conspiracionismo brasileiro

Em 1993, os agentes especiais do FBI Fox Mulder e Dana Scully ficaram mundialmente conhecidos na série de televisão "Arquivo X". Nela, a dupla, investiga, a cada episódio, um caso aparentemente sobrenatural nos Estados Unidos. A série, entretanto, não chamaria tanta atenção não fosse a química perfeitamente balanceada entre Mulder, um homem traumatizado pelo desaparecimento súbito da irmã, fazendo-o acreditar em suposições místicas e pouco científicas, e Scully, uma protagonista cética e pragmática, que sempre pauta suas investigações no racionalismo lógico e científico. Em tal configuração, grande parte dos episódios divide o público, por vezes astucioso como Scully, e por vezes conspiracionista como Mulder.


"Arquivo X" teve, em grande parte, seu sucesso ocasionado pelo sentimento de dúvida ao redor do imaginário americano. Decerto, apesar da série apresentar o questionamento como artifício de defesa à integridade humana, visto que no universo ficcional da série haviam de fato ameaças governamentais e sobrenaturais ocorrendo, o apelo popular tem sua origem nos anos duvidosos da Guerra Fria. Com o mundo dividido entre dois grandes blocos sócio-econômicos, o governo norte-americano instigou um sentimento alarmista na população, alertando sobre as supostas ameaças comunistas que poderiam estar sendo arquitetadas por conhecidos de trabalho, vizinhos e até membros da própria família. Receosa de perder seus privilégios e de ser obrigada a viver sob o julgo cruel dos inimigos soviéticos, a sociedade, como um todo, assumiu a postura requerida pelo governo, tornando-se desconfiada, conspiracionista e alimentando um temor social descabido.
Contudo, não apenas em solo norte-americano as ideias conspiracionistas se proliferaram. Apenas no Brasil, o medo do comunismo foi justificativa para a consolidação de duas ditaduras em um intervalo de tempo ínfimo. Primeiro, o Plano Cohen, uma suposta intervenção comunista no país, após o fracasso da Intentona, foi utilizado pelo presidente Getúlio Vargas para instituir um Estado de sítio e implementar o Estado Novo, com a outorga da constituição de 1937. Posteriormente, em 1964, opositores ao governo de João Goulart passaram a classificá-lo como comunista, descontentes pela postura orgulhosa e incompetente, fazendo assim com que a própria sociedade civil brasileira passasse a endorsar uma intervenção militar no país, clamando por ordem pública.

Imagem da Marcha por Deus, pela Família e Pela Liberdade, principal movimento civil pela intervenção militar de 1964.
De fato, durante os anos de chumbo, atuaram grupos guerrilheiros urbanos nas principais cidades do país, tentando sempre superar os temores dos governos militares. Ainda assim, as lideranças comunistas no Brasil nunca tiveram poder efetivo, sendo rapidamente reprimidas quaisquer formas de resistência. E ainda, por serem os membros em grande parte jovens estudantes, as ideias revolucionárias ocupavam por demais o campo das universidades, encantando as lúdicas mentes juvenis. O irônico é observar que, dentre os vários conquistados pelos conceitos marxistas, estava um jovem sem formação acadêmica, tendo largado o colégio quando pequeno, e que tornaria a ser um dos maiores conspiracionistas brasileiros.
Olavo de Carvalho, uma das figuras centrais do conservadorismo brasileiro, responsável pelas mais estapafúrdias das hipóteses elaboradas e divulgadas do pensamento contemporâneo, esse que poderia ser chamado de Fox Mulder dos trópicos, uma vez convencido pelas ideias de esquerda, quando atuava como jornalista iniciante, passou a militar, no campo das ideias, a favor do comunismo. No entanto, após um episódio em que teve de aprisionar um homem, em cárcere privado, abandonou suas convicções.

À primeira vista, talvez seja difícil de entender como alguém sem qualquer formação acadêmica, que após ter abandonado suas convicções ideológicas passou a estudar pseudo-ciências como a astrologia, e que há anos não pisa em solo nacional, possa ter tanta influência no país a ponto de representar uma ameaça. Entretanto, talvez Olavo de Carvalho possa ser o responsável pelo próximo marco conspiracionista na história política brasileira. Ou melhor, ele já o foi.
As eleições e os processos políticos envolvidos em 2018 ficarão marcados pela vitória de um militar no cargo da presidência da República, com uma campanha recheada de táticas duvidosas, envolvendo caixa dois e a divulgação de Fake News, simbolizando a derrota de um partido orgulhoso, incapaz de assumir seus erros nas gestões anteriores, e a vitória do conservadorismo olavista. Tanto o é assim que, ao comemorar sua vitória nas redes sociais, o presidente eleito Jair Bolsonaro tinha consigo um livro de Olavo, seu "professor". Além disso, Olavo de Carvalho foi responsável pela nomeação de pelo menos dois ministros do novo governo: Ricardo Vélez Rodríguez, para e educação, e Ernesto Araújo, para relações exteriores. Dessa forma, Olavo estende para seus aprendizes suas ideias frágeis, danosas e comprometedoras, e agora são esses que governarão o país.
Para se entender o que Olavo de Carvalho prega, basta assistir a um de seus vídeos na internet, ou ler um de seus textos nas redes sociais. Em sua argumentação, utiliza-se de deboches e escárnios para desqualificar determinada ideia oposta a dele. Munido de uma provável frustração de seus tempos de militante, ou até mesmo quando estudante, diz não acreditar na educação, já que ela está condenada pelo marxismo ideológico e cultural que permeia a sociedade por artistas e intelectuais incapazes e doutrinadores. Também alega verdadeiros absurdos no campo científico, sendo um dos defensores na campanha anti-vacina e pró-tabagismo. E, em seu imenso e incalculável ego, contesta diretamente teorias fundamentais das ciências; não por de fato desejar um aprimoramento na discussão científica, mas sim para se mostrar tão ou mais qualificado que pensadores do cânone acadêmico.
No campo geo-político, contudo, é onde Olavo se expressa com mais intensidade. Alegando existir um grande plano de dominação comunista, encontrando Marx em demasia naquilo que é claramente Schumpeter e Adams Smith, realiza a mesma estratégia desenvolvida no passado, com o único diferencial da motivação. Afinal, Olavo não deseja, aparentemente, poder político. Ao mesmo tempo, ele não parece buscar reconhecimento acadêmico. Como uma criança mimada, Olavo parece querer provar a si mesmo que tudo o que ele viveu até então o levou à melhor vida que ele pudesse ter, mesmo não o sendo, necessariamente. Novamente realizando uma comparação com Mulder, fantasiar passa a se tornar necessidade em mentes que passaram por desilusões, como se agarrar-se nesses devaneios fosse a única forma de legitimar todas suas escolhas, disfarçando suas frustrações e decepções.
O pior, no entanto, é a alcunha que Olavo se dá. Para ele, a direita brasileira nasceu com seu pensamento. Tanto o é assim que a nova direita que agora assume o governo é completamente influenciada por ele. E, por isso, torna-se patética. A fala de Olavo, além de realçar o tamanho de seu ego, indica um verdadeiro desconhecimento de cultura e herança brasileira. Por anos, acadêmicos notáveis de direita produziram obras e conhecimento técnico-científico que os renderam conhecimento mundial. Depreciando a nação, Olavo de Carvalho criou uma direita que se diz patriótica mas não conhece o próprio país. Ou, ao menos, não conhece o povo, sua história, sua sensibilidade e suas riquezas. E, com pessoas criadas pelo pensamento de um homem como esse no poder, é necessário nos protegermos do verdadeiro desastre que se anuncia.

Texto de Lucas Barreto Teixeira

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