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Cidade Invisível - Folclorização e Epistemicídio

 Quando foi anunciada, há cerca de um mês, tive minhas dúvidas quanto à série "Cidade Invisível". Um romance policial clássico, tendo como protagonista um oficial da Delegacia de Proteção ao Meio-Ambiente do Rio de Janeiro, que investiga a disputa de terra entre uma empresa e os cidadãos pacatos da Vila Toré... mas com um elemento a mais, que a diferencia das demais séries: a utilização de elementos e personagens do "folclore" brasileiro. E é nessa questão que as principais discussões quanto à produção se deram, questionando o que tal liberdade criativa significa em um contexto sociocultural. Então, mais intrigado pelos debates do que pela premissa em si da série, rendi-me a ela.


Não há nada de novo em Cidade Invisível. E não digo isso necessariamente como uma crítica. Eric (Marco Pigossi) é o policial clássico, amargurado pela perda da esposa e se vendo obrigado a restabelecer um vínculo emocional com a filha, em cenas clichês de sentimentos desestabilizados por traumas. O delegado Ivo (Rafael Sieg) e sua parceira, Márcia (Áurea Maranhão), são escritos de forma tão genérica e previsível que até a cena clássica de "deixe a arma e o distintivo" acontece nos últimos episódios. O conflito entre a empresa e a vila, da mesma forma, segue uma fórmula clássica e sem muitos espaços para surpresas. No entanto, no geral, não há nada ruim no enredo, rendendo momentos interessantes, no geral, fazendo-se valer enquanto narrativa. Mas nada disso, é claro, poderia funcionar se as entidades religiosas aqui representadas não se encaixassem em tal fórmula.
Há duas formas como o "folclore" é inserido na narrativa. A primeira é a mais simples, por meio dos personagens "ordinários", do plano mais simples da existência, começando em Seu Ciço (José Dumont), que aqui funciona como um homem de fé da Vila Toré, e seguindo para Luna (Manu Dieguez), filha de Eric. Nessa dimensão, as entidades são representadas por lendas e em livros, tornando-se limitadas. Entretanto, ao se apresentarem enquanto personagens, tomam uma forma mais complexa, tomando nomes e individualidades para além de suas figuras construídas no imaginário popular.
Tomo como exemplo o Boto, aqui na série adquirindo a alcunha de Manaus (Victor Sparapane), que aparece morto já no primeiro episódio, dando início ao maior mistério da trama. A versão da história do boto-cor-de-rosa aqui usada é a mais comum e difundida, em que o animal se transforma em um homem galanteador e engravida as mulheres que caem em seus pés. Porém, esta não é nem de longe a forma original como a divindade se apresenta. Ao tentar se aprofundar no tema, é possível se deparar com inúmeros indígenas, em especial os que vivem ao Norte e Nordeste do país, que enfaticamente buscam resgatar de onde tais entidades se originaram, até porque não se tratam de personagens de uma religião há muito extinta. Ao contrário de deuses gregos, egípcios ou nórdicos, que já foram retratados das mais diversas formas e adaptadas em praticamente todas as mídias, representar entidades indígenas sem sensibilidade acaba criando uma mentalidade popular de que os valores de tais culturas se encontram apenas no passado, e apenas ao modificar seu conhecimento de forma radical.
A série peca ainda mais quando apresenta Isac (Wesley Guimarães), um Saci tirado diretamente da literatura racista e eugenista de Monteiro Lobato. Completamente destituído de sua raiz Guarani, o Saci (Jaxy Jaterê, no original) é atualizado de forma interessante, mas está sempre preso pelo viés do criador do Sítio. Antes de prosseguir, apenas um adendo: não sou, de longe, a melhor pessoa para falar com propriedade sobre certos aspectos de tal extenso tema. Recomendo aqui uma entrevista com o autor Olivio Jekupé, que aborda com muito mais saber o tópico. Em todo caso, em tal momento do texto, é possível agora comentar sobre os efeitos da "folclorização" desses personagens, com o intuito de compreender os erros e acertos de Cidade Invisível.
Tendo apresentado de que forma a série se utiliza do "Folclore", é interessante pensar sobre certas questões morais ao redor da utilização de tais figuras. Não posso deixar de comentar a triste e expressiva parcela da população brasileira que despreza, ironiza e ridiculariza todo tipo de saber e cultura originária do país, e é grande parte por conta de tais indivíduos que é muito difícil discutir sobre a forma como o "Folclore" se apresenta. Em um país em que o presidente acredita em um projeto "civilizatório" aos moldes do executado pelos jesuítas no Brasil colonial, certos regressos parecem progressos. É interessante ver uma série com uma produção tão grande, com tantos recursos e com capacidade de distribuição tão elaborada, sendo feita. Mas é curioso ver como, mesmo em tais condições, a produção não foi capaz de colocar sequer um indígena na sala de roteiro ou no elenco principal.
Essa limitação restringe potencialmente a série. Tudo é genérico demais, tirado diretamente de histórias distorcidas para ironizar o conhecimento originário. É dessa forma que a folclorização pode ser vista como um verdadeiro epistemicídio, apagando conhecimentos e os substituindo por visões eugenistas. Francamente, é uma situação frustrante. Há ali o potencial. Há ali o esqueleto de algo minimamente diferente. Mas todos os flertes com tais narrativas acaba criando uma obra que não se sustenta muito além do básico. Claro, é possível argumentar que, independente de como tais religiosidades foram distorcidas, o conhecimento popular é constituído daquela maneira. E é exatamente por conta disso que a série tem certa responsabilidade em retratar personagens com justiça. São as pequenas coisas que fazem a série voltar-se contra ela mesmo. Tomemos Iara (Jessica Cores) como exemplo, que aqui abandona sua personalidade e torna-se algo completamente distinto. Aliás, ao tratar divindades como meros arquétipos a serem adotados por indivíduos quaisquer, a série acumula mais e mais falhas facilmente evitáveis. No fim, mesmo a direção competente e atuação forte não são capazes de salvar as falhas desse roteiro genérico. Não há nada para sentir aqui além de genuína frustração.

Texto de Lucas Barreto Teixeira


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