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"O Senhor agora vai mudar de Corpo" - Esse est Percipi

Após sofrer um acidente vascular cerebral, o ilustre escritor Raimundo Carrero tinha apenas uma preocupação em mente: ainda seria capaz de escrever? Perdera toda a sensibilidade na parte esquerda de seu corpo, além de ter passado por uma cegueira temporária, causando-lhe um verdadeiro sentimento de terror. Afinal, o que seria ele sem poder criar em sua literatura?


Em 2015, cinco anos após o AVC, tendo já publicado um romance que lhe renderia a semifinal do prêmio português Telecom, Carrero publica "O senhor agora vai mudar de Corpo", uma novela em que projeta suas angústias, seus temores e sua percepção acerca do evento. Contudo, não obtendo fluidez com uma narrativa autobiográfica, optou por uma escrita alegórica, tentando afastar-se ao máximo de si mesmo, a fim de conseguir entender a si mesmo.
"O Corpo é a única certeza que nos acompanha do nascimento até a morte". A frase de Clarice Lispector, epígrafe do livro, já antecipa o tópico principal a ser abordado pelo escritor ao longo da novela. O Corpo de Carrero, contudo, é substancialmente diferente do de Clarice. Afinal, ilustra, o Corpo muda quando o sujeito muda, geralmente de forma radical, quando o indivíduo passa por episódios traumáticos. Ao mesmo tempo, os Corpos se fundem, o passado colidindo com o presente, antecipando o que se verá no futuro, todos como extensão dos outros. Analisemos por parte;
A novela tem como início uma cena após o acidente do "Escritor". Em meio a seus delírios, a realidade lhe aparece disforme, confusa e irreal. Inseguro, sente-se ameaçado por inimigos invisíveis, que a ele parecem tão concretos quanto qualquer outra coisa. Dentre as figuras à sua frente, um dos corpos assassina outro, bem em sua frente. Apesar disso, ninguém ao redor parece notar o homicídio que, portanto, é ignorado. Ao longo da narrativa, a cena simbólica passa a fazer um pouco mais de sentido. Carrero retrata, logo de início, a morte de uma parte dele, uma parte lúdica, boêmia, assassinada pelo próprio pavor da morte. Todas aquelas figuras pitorescas, no fundo, representavam diversas partes do mesmo homem, fragmentado por suas dores, que agora não é capaz de curar-se com sua escrita.
Ó elemento mais interessante presente nesse trecho é o traço existencial delimitado por Carrero. Afinal, ocorre uma grande mudança na vida do Escritor. Ao mesmo tempo, entretanto, ninguém parece notar tal transformação. Antes de desenvolver essa ideia, avançarei um pouco na narrativa, até o segundo capítulo, quando ocorre, de fato, o AVC. Durante o episódio, o personagem passa por inúmeros sentimentos oponíveis e complexos, sequenciando um interessante fluxo de narrativa. De início, há o prazer, a alegria de não ter de se preocupar mais com nada, até notar sua situação desesperadora. Sua esposa, que é médica, rapidamente liga para a emergência. Enquanto esperam, o não controle pelo seu próprio corpo lhe aterroriza. Em uma tentativa desesperada de se fazer existir, tenta falar, embora em vão, já que nenhuma das palavras que articula tomam formas. Por último, sua visão escurece, até se tornar um negro gigante. Já não mais existia naquele instante. Era um corpo disforme, sem alma, vazio. Em desespero, ainda recorre a Deus, seu sacro mestre, que em uma diferença cósmica não parece lhe notar.
Ora, mas por que o simples "ser notado" ou "perceber" era tão essencial ao Escritor? A fim de responder o presente questionamento, introduzo o princípio do filósofo e teólogo irlandês George Berkeley: "Esse est percipi", ou, "Ser é ser percebido". O imaterialismo, ou idealismo subjetivo, de Berkeley se resume à sentença destacada. Para ele, as coisas apenas existem quando são percebidas, ou ainda, nada existe a menos que seja percebido. Ao mesmo tempo, Berkeley defendia que as coisas que não são usualmente percebidas existem porque Deus a tudo percebe.
Beckett, escritor conterrâneo de Berkeley, aproveitou-se no imaterialismo e aprofundou a tese. Em sua curta cinematográfica "Film", um homem aparece correndo, tentando fugir da rua e da própria câmera. Ao chegar em seu apartamento, cobre todo tipo de objeto que poderia refletir seu rosto. Tais atos representam uma tentativa desesperada de não ser visto, assim, não mais existindo. No entanto, no fim da curta, ele mesmo se percebe. Assim, a coisa pode existir por si mesma, desde que ela mesma se perceba.
É isso que ocorre na novela de Carrero. A angústia proveniente de não perceber inclusive a si mesmo é tamanha que sua própria existência é questionada. Deus, nesse sentido, seria sua única esperança, embora também questionada.
A relação entre Deus e o Escritor é curiosa, no mínimo. Ao longo do texto, percebe-se que o ato da escrita para o protagonista é muito mais criativa que descritiva. Dessa forma, criar seu universo ficcional (o que pode ser entendido também como perceber coisas que, por não terem sido percebidas antes, não existiam) é afirmar uma divindade própria, pretensiosa. Assim, ao ver-se desqualificado enquanto agente de percepção, sua crença de uma divindade universal pode ser questionada, por comparação.
Por último, vale estabelecer a relação entre o corpo e percepção. É bem verdade que o Corpo, no fim, é apenas uma certificação da nossa realidade sensível. Nesse sentido, o que Carrero demonstra a partir do trecho de Clarice é que a única certeza que nos acompanha do nascimento até a morte é a nossa percepção. A percepção, por outro lado, não é constante, visto que pode estabelecer diferentes critérios de comparação ao longo da vida, como demonstra Carrero ao longo da novela. Assim, Carrero compartilha sua sabedoria a partir de um texto delicioso, repleto de metáforas e com uma escrita magistral. Não há como se esperar menos desse mestre da literatura nacional.

Texto de Lucas Barreto Teixeira 


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