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A Literatura da Literatura de Ana Miranda

Terminar a leitura de um livro de Ana Miranda é ser chamado a escrever, a pensar, a entender-se. Afinal, suas obras apresentam esse distinto detalhe criativo, derivadas da aura poética, dos amores e dores de figuras ilustres da nossa literatura, sendo ela mesma chamada a escrever pelas paixões das personalidades que se apresentam em nossa história. A obra de Ana Miranda é, por assim dizer, um chamado, e é por conta dele que resolvo tecer breves comentários a respeito da magnitude de sua escrita, sua literatura, sua poesia.


Tenho agora ao meu lado o romance "A Última Quimera", como se me observasse, esperando algo, uma reação. E na verdade só consigo pensar no quão difícil é expressar sentimentos tão complexos que podem tomar o leitor ao longo de sua leitura. Talvez deva começar com o básico.
Ana Miranda é conhecida por escrever romances históricos baseados em personalidades literárias, contextualizando intenção poética no tempo, recriando as estruturas sociais, as relações afetivas e dando aos mortos a oportunidade de se comunicarem. Entrei em contato com sua obra por mero acaso, encontrando "A Boca do Inferno" oculto em minha prateleira por outros livros. Perguntava-me como aquele exemplar teria chegado até ali. Havia comprado em um sebo junto com dezenas de outros em promoção? Teria alguém me emprestado, ou até me presenteado, como se soubesse de seu efeito em mim? Gosto de pensar que ele apenas surgiu no momento em que soube de sua necessidade. E foi assim que me apaixonei por aquele livro instigante, dolorido, belo.
Reconstruindo uma Bahia do século XVII, dominada pela tirania colonial, a autora colore as ruas inescrupulosas com a libertinagem de Gregório de Matos, recusando ter sua liberdade suprimida pelas tramas políticas que se desenrolam ao longo da narrativa. Aqui, nada é oculto do autor. A natureza cruel da tirania colonial, a personalidade complexa do poeta - ao mesmo tempo cativante e detestável -, tudo culminando na criação poética do poeta "Boca do Inferno", como era conhecido, revitalizando suas sátiras e reforçando sua atitude descompromissada.
Dessa forma, Ana Miranda escreve tendo como objetivo despir a literatura de seu academicismo, de seu manto de mistérios, ressuscitando um homem para falar de si mesmo. É, de certa forma, uma literatura da própria Literatura, imersa em um trabalho espiritual profundo, guiada pelas palavras distantes de um morto que desejava viver livremente.
No entanto, demorei mais de um ano para voltar a ler Ana Miranda. Afinal, o mundo aconteceu. Isolado em casa, em meio à solidão do confinamento, afastei-me de livrarias e sebos, e me tornei servo das torres de livros esquecidos, aos quais havia há muito prometido a leitura. Foi apenas recentemente que, novamente ao acaso, parei em um site de compras, na página do angustiante "A Última Quimera". Antes de autora, Ana Miranda é uma exímia artista, tendo ilustrado suas capas e a arte interna de seus livros. Portanto, ao me deparar com o mistério da capa, não pude deixar de encomendar um exemplar.


E aqui estamos novamente. Agora, eu, em minha solidão, com o livro ao meu lado, ainda absorto por suas linhas, sua poesia, sua crueldade. Sempre tive um vínculo intenso com Augusto dos Anjos, o protagonista desse romance. Não à toa, usei seus "Versos Íntimos" como epígrafe em meu primeiro livro, como uma singela forma de homenagem à sua literatura mórbida, íntima, cruel, embora sublime.
Dessa forma, não seria possível escrever "A Última Quimera" de outra forma. O romance tem como principal temática a maior cobiça de Augusto: a Morte, e em especial, a própria. O romance tem como início simbólico um diálogo com Olavo Bilac, o príncipe dos poetas, e o protagonista sem nome, quando conversam sobre assuntos literários, até chegarem no anúncio da morte de Augusto dos Anjos. No entanto, a única resposta dada por Olavo Bilac é certa indiferença, por não reconhecer o nome do poeta leopoldinense.
A partir de então, o romance se desenrola em um misto de ficção e biografia. A caminho do velório do poeta, o protagonista se recorda da amizade com Augusto, carregando uma terrível angústia por não tê-lo ajudado durante sua vida de miséria na podridão das ruas do Rio de Janeiro, reconhecendo sua paixão pela viúva, Ésther, construindo assim um cenário sôfrego, onde a angústia e as dores se tornam necessárias para carregar o peso de se estar vivo. Dessa forma, os versos de Augusto ganham ainda mais vida e força, reconhecendo uma necessidade de se existir por conta das fraquezas humanas.
Nesse sentido, não é possível ignorar o que Ana Miranda é capaz de provar com a força de seus romances. Primeiro, que a poesia é vinculada diretamente com seu contexto histórico e com a subjetividade de seus autores. Por mais que seus versos consigam sobreviver, eles ganham força com as vontades e os anseios daqueles que os compõem. Segundo, a autora delega à atividade literária uma função política. Afinal, tanto no caso de Gregório quanto o de Augusto, seus versos servem para libertá-los das opressões, sejam sociais, biológicas, políticas, gramaticais... há algo sempre maior na intenção da escrita poética.
É extremamente libertador terminar uma leitura de Ana Miranda. Por conta destes e de muitos outros fatores ao redor de sua literatura, sua obra é recheada de uma reflexão espiritual intensa a respeito da arte e da natureza humana. No entanto, foi apenas um pequeno detalhe ao fim do romance que me compeliu tão fortemente a escrever sobre ele. Já no epílogo, o protagonista assiste, inerte, à demolição da antiga casa de Augusto no Rio de Janeiro, como parte da reforma urbana de Pereira Passos, responsável por demolir moradias de famílias pobres, em um processo de gentrificação na área portuária. Em um livro cheio de símbolos, a última imagem simbólica é uma das mais significativas: abordando o descaso, a indiferença e a morte material pela banalidade do cotidiano. Dessa forma, Ana Miranda nos recorda que os grandes literatos são grandes porque falam sobre nós. O abandono, a liberdade, as vontades e os temores... temas universais, ligando a todos pela angústia da existência.

Texto de Lucas Barreto Teixeira   




 
 

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