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É assim que se perde a Guerra do Tempo

É difícil começar esse texto. Difícil, não apenas pelo misto de emoções que sinto agora, tentando expressar em palavras o que palavras do livro causaram em mim, mas difícil também por medo, medo de não fazer justiça a elas. O princípio, de toda forma, é um bom ponto de início - não ideal, porém bom o suficiente. Red é uma agente, que surge em meio a um mar de corpos e sangue para encontrar uma carta inofensiva, limpa, bem cuidada, uma fagulha em meio a uma guerra etérea. Em sua superfície, apenas um delicado aviso: "Queime antes de ler." Então, pela massa grudenta de papel queimado e solo manchado pelo sangue, uma mensagem surge de uma rival, ou admiradora, desconhecida conhecida: Blue, iniciando, assim, uma sequência de encontros e desencontros no tempo, de implicâncias delicadas e flertes famintos, desencadeando em um romance muito maior que qualquer conflito eterno. Mas adianto-me. E tempo não falta para mergulhar na profundidade de "É assim que se perde a Guerra do Tempo", de Amal El-Mohtar e Max Gladstone. Então comecemos do princípio.

Publicado no Brasil pela Editora Suma. Capa adaptada do Original de Greg Stadnyk
e ilustrações por Renato Faccini.

A Guerra do Tempo

Nunca um elemento tão vital para a narrativa foi tão insignificante quando colocado ao lado de seus personagens. No entanto, a Guerra é o cenário em que toda a trama se enrola e desenrola, e é por conta dela que se é possível vivenciar tão profundo romance. É uma batalha de dois lados, a Agência - tecnocrata e objetiva - e o Jardim - idílico e perene - que travam um jogo ao longo das eras e de volta a elas, guiando a história em linhas que saltam e repercutem, criando, destruindo, deixando de criar. Nesse sentido, Red nunca perde suas batalhas. Seja ao lado de César, enquanto Senadora, com uma adaga oculta em suas vestes, ou sendo aprendiz de uma gênia quíchua, amarrando troncos e tecendo cordas, influencia as pessoas certas no momento certo, ou simplesmente elimina os obstáculos daqueles que contribuem para a história seguir o rumo previsto pela Agência, sendo sempre vigiada pela onisciente Comandante. Ao mesmo tempo, é Blue quem não perde suas batalhas. Guiando ao invés de intervir, inspirando a vida e a arte, enraizando na terra sua presença, força a vantagem do Jardim sobre o oponente, sendo um com seu coletivo e destacando-se enquanto um.
Contudo, talvez a Guerra do Tempo não seja algo a ser ganhada. Talvez, seu mero propósito seja existir, deixando rastros de humanos, deuses e animais para trás, sem que o fim seja nele mesmo da maior importância. Ainda assim, pulando pelas vertentes do tempo, ela é disputada.


De Inimigas a Amantes

É pelo combate que a curiosidade é desperta. E, por ela, a admiração. Blue, assim, deixa cartas a Red, primeiro cheias de malícia, escondendo seus interesses, mas sempre concisas, recebendo de uma Red intrigada respostas longas e famintas pelo contato. Fome sim, mas não a comum. A fome das paixões humanas, que se perdeu pelo caráter de suas existências disformes e solitárias. Não tarda até as cartas se libertarem do papel. Suas mensagens são deixadas a vagar pelo fluxo do tempo, escavadas no interior de árvores, no sangue de suas feridas, em estrelas cadentes e no veneno fatal.
O amor que aqui se constrói é um amor que ultrapassa não apenas os limites do tempo e da própria guerra, mas até de si mesmas. Quando desejam se entregar uma a outra, elas se deixam ser vencidas em suas batalhas, porque já não lutam por seus respectivos lados. Lutam por elas mesmas e uma pela outra.

As Cartas

Red e Blue coescrevem suas histórias por suas cartas e por suas ações, e isso é um reflexo direto de como o livro se é escrito. Amal e Max são autores de muitos méritos, conhecidos por premiações pregressas e que se juntam aqui como uma luva. Afinal de contas, apenas com duas perspectivas distintas dialogando entre si é que uma nova pode ser formada.
Escrever se torna uma necessidade na mesma proporção de que consumir a escrita se torna essencial. Na ausência de contato direto, é pela força das cartas que podem se encontrar. O amor nasce da fome de compartilhar-se e de consumir-se. Todavia, ele se torna uma armadilha ao mesmo tempo.
É quando a Comandante desconfia de sua agente que ela a manda assassinar sua amada. É com o veneno mortal que Red se despede, em um desespero incontrolável, sabendo que seria lida nos últimos suspiros de Blue, que traída por si mesma escreve a última palavra, sempre vencendo, até na derrota. E Red foge, foge do tempo, foge de si mesma.


 A Sombra

A Sombra é uma personagem oculta e presente, um pressentimento ruim que ecoa pelo tempo, perseguindo Red, caçando-a e assombrando-a. Apenas na morte de Blue, com sua última carta em mãos, à beira de um precipício, ela tenta entender seu abraço, mas logo recusa, jogando-se e caindo pelo tempo, para transformar-se na própria sombra. A fórmula Romeu e Julieta estava a posta (afinal, Blue morre ao digerir o veneno após sair do teatro que apresentava a peça), mas Red nega seu papel de sacrifício. Ela não pode perder, afinal.
A morte serviria bem o suficiente aqui. O amor inalcançável exige um sacrifício. Felizmente, contudo, não é isso que acontece. Red, a Sombra, toma Blue em si e alcança-o, em um mergulho à morte para salvá-la, salvando-se. Quando encontram-se, já não participam mais da Guerra do Tempo. A Agência e o Jardim parecem cada vez mais distantes, mais tolos, ou elas se tornam tolas por seus sentimentos. Nada que importe, de verdade.
No fim, é a vida que dá sentido à morte, e esse é a última mensagem que deve ser passada. "É assim que vencemos", comunica Blue. E talvez seja verdade. Ao voltar para guiar a história, mudar a própria parece urgente com um propósito renovado, e possível no agora, além de passado e futuro. O que importa é saciar a fome, preenchendo-se de paixões renovadas. Não existem mais lados, apenas o tempo em si.

Texto de Lucas Barreto Teixeira

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