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Os Bons Selvagens de Jorge Amado


Apenas os privilegiados que já tiveram a honra de conhecer a Bahia, seus mares, seus cheiros e seus gostos, são capazes de discernir o afrodisíaco de todo o resto. Dentre todos seus conterrâneos, no entanto, poucos tiveram tamanho conhecimento profundo dessa terra quanto Jorge Amado. O escritor, autor de obras clássicas da literatura como “Gabriela” e “Capitães de Areia”, foi um dos poucos capazes de traduzir a linguagem transmitida pela cultura baiana.

 
Jorge Amado (1912 - 2001)
Dentre a miríade de seus textos, Jorge Amado foi responsável pela produção da novela “A Morte e A Morte de Quincas Berro D’água”. No livreto, conta-se a história da morte de Quincas, um bêbado maltrapilho, antigo respeitável servidor público, Joaquim Soares da Cunha. Ao encontrar o defunto, a família resolve fazer uma cerimônia religiosa, sacra, em memória à figura séria de Joaquim. Exposto em uma sala escura, iluminada apenas pelas velas, Quincas fora trajado com roupas cerimoniosas que não condiziam à sua verdadeira vida boêmia e alegre. Entretanto, ao tomarem conhecimento da morte de Quincas, seus amigos marcham solenemente até a cerimônia, onde são recebidos friamente como marginais.
Então, após certo tempo de vigília, o ar da Bahia espreita a sala escura, apagando as velas e iluminando a sala com o sol baiano. Os amigos, que já se encontravam a sós com o morto, viram no sorriso debochado de sua fisionomia a vida que ainda não abandonara o bêbado. Assim, o grupo retira Quincas do caixão, tira dele as roupas sufocantes e o levam para festejar, até irem a uma navegação, onde Quincas morre ao ser lançado ao mar, como era desejado pelo homem.
Com a novela, Jorge Amado traz de volta uma ideia antiga da literatura. O naturalismo presente na obra é evidente, uma vez que a terra proporciona uma alteração total no comportamento das personagens. Primeiro, Joaquim é corrompido pela Bahia e passa de um homem honrado a um bêbado. Depois, novamente, na ocasião de seu velório, o ar salgado do mar o faz voltar momentaneamente à vida para morrer não como um engravatado qualquer, mas como um homem da terra e do mar.




Apesar disso, o escritor não aparenta delegar ao naturalismo um sentido ruim. Pelo contrário, já que, para ele, os baianos, completamente apaixonados pela sua origem, são os heróis da história, enquanto que a família, formal e pautada em valores morais, é descrita como poço de intrigas, calúnias e hipocrisia. Assim sendo, Jorge Amado pauta seu texto na ideia do “Bom Selvagem”.
A teoria do Bom Selvagem foi uma tentativa do filósofo iluminista Rousseau de confrontar as ideias políticas que sustentavam o Antigo Regime, em especial, a teoria do contrato social de Thomas Hobbes. Ao contrário do filósofo inglês, que acreditava ser necessário um Estado absoluto para controlar os desejos naturais dos homens, egoístas e individualistas, Rousseau acreditava na integridade do homem no estado natural. Dessa forma, o selvagem seria essencialmente justo e bom. No entanto, o Estado, ou a sociedade, seria responsável pela corrupção do homem, tornando-o mal e egocêntrico.

 
Jean-Jacques Rousseau (1712 - 1778)
De forma análoga, Jorge amado parece se aproveitar dessa teoria para construir seus personagens. Também, em “Capitães de Areia”, o naturalismo da Bahia parece servir como esperança às crianças esquecidas pela sociedade, acolhidas apenas pelo manto estrelar da noite, dormindo na areia da praia que invadiu, no decorrer do tempo, a casa onde se escondiam.
O amor de Jorge Amado pela Bahia, portanto, não cabe apenas em sua cultura. Afinal, assim como ocorreu com seus personagens, a alma dessa terra esparrama-se pelo corpo e invade a própria forma de existir. Misturando o romantismo em volta da natureza formosa com o determinismo dos mares que banham suas costas, Jorge Amado foi capaz de criar algo novo com sentimentos conhecidos apenas pelos abençoados pela riqueza baiana.

Texto de Lucas Barreto Teixeira

Comentários

  1. Gosto muito de Jorge Amado, da Bahia e destas suas colocações sempre tão cheias de significados.

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