Pular para o conteúdo principal

Glass e discriminação pela loucura

Continuação de Corpo Fechado e Fragmentado, Vidro (Glass, no original), encerra a trilogia de M. Night Shyamalan englobando novos elementos para sua interpretação cinematográfica do universo fantástico de quadrinhos de super-heróis. Ao ousar em seguir uma narrativa mais fantasiosa, sem abandonar o pseudo-realismo e o terror psicológico dos outros títulos, o diretor cria um desfecho modesto, sem grandes pretensões, embora encerrando com justiça a trama criada ao longo de 19 anos, com a estreia de Corpo Fechado. Contudo, Shyamalan, de forma sutil, introduz uma interessante discussão ao redor de ideias antigas, que foram reintroduzidas por filósofos, autores e artistas, sobre liberdade e sanidade.


O enredo de Glass é simples. Após os eventos do filme Fragmentado, David Dunn, personagem de Bruce Willis conhecido por ser um vigilante das ruas de Filadélfia, vai atrás de Kevin (James McAvoy), o homem responsável pela abdução e consequente assassinato de jovens adolescentes. No entanto, logo no primeiro contato entre o herói e vilão, a força policial é capaz de conter ambos, levando-os a um hospital psiquiátrico, alegando se tratar de dois doentes mentais por terem variações de um transtorno de superioridade.
No mesmo centro de tratamento se encontra Mr. Glass, personagem de Samuel Jackson responsável pela origem de David como um super-herói em Corpo Fechado. Uma vez unidos, os personagens são instigados pela doutora Ellie Staple (Sarah Paulson) a questionarem suas crenças, levando-os a acreditar que não são tão especiais como acreditam.
A técnica da psiquiatra é utilizar-se de sofismos para desacreditar a cognição dos pacientes. Sem se preocupar em elaborar teses verdadeiras, busca convencê-los que apenas ela, a figura de autoridade, de fato é capaz de racionalizar a realidade, tornando-se a detentora da verdade universal. Dessa forma, a doutora busca convencer indivíduos que não se adequam ao status quo, ou seja, que não conseguem se adequar às normas sociais, de que eles são loucos ou insanos.
O autor surrealista Antonin Artaud, um dos maiores expoentes do teatro do absurdo, internado algumas vezes em hospícios, dizia que a sociedade moderna discrimina aqueles que não se adequam a suas regras de convivência, classificando-os como degenerados, loucos. Assim, a doença mental se torna prerrogativa de limpeza social; afinal, o Estado deveria agora afastar os insanos do convívio social.
Artaud apontava nesse comportamento uma maneira sofisticada de eliminar gênios incompreendidos, apontando o pintor Van Gogh como uma das vítimas dessa mentalidade. Afinal, não há interesse de um Estado promover um visionário, com ideias disruptivas e uma arte sem ordem - representada pelas próprias academias de arte. Em uma sociedade conservadora, a manutenção de instituições é uma prioridade, logo, faz-se necessário afastar dela os indivíduos capazes de suprir as necessidades delas.
De certa forma, Shyamalan brinca com tais conceitos filosóficos e literários. Tendo em mente o raciocínio do francês, o diretor propõe a existência de seres que, por serem extraordinários, não necessitam das instituições sociais. Nesse cenário, para o bem maior de uma sociedade ordinária, faz-se preciso eliminar do convívio social tais seres.


Em suma, Glass, um filme que pode ser considerado apenas como modesto, pode também ser interpretado por aspectos mais profundos, densos e caprichosos. A atuação por trás dos três protagonistas, por si só, já faz o longa ser uma obra agradável de ser apreciada. Ainda sim, não há nada como a sensação de perceber uma mensagem artística que justifique toda a existência da produção cinematográfica. Encerrando a trilogia de forma justa, leva o espectador a se questionar sobre liberdade e  sobre seu potencial de superar as amarras de seu tempo.

Texto de Lucas Barreto Teixeira

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A hora da estrela - A epifania da morte

Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré- história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou. Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho.  Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré- pré-história já havia os monstros apocalípticos? Se esta história não existe passará a existir. Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois juntos – sou eu que escrevo o que estou escrevendo. Deus é o mundo. A verdade é sempre um contato interior inexplicável. A minha vida a mais verdadeira é irreconhecível, extremamente interior e não tem uma só palavra que a signifique. Meu coração se esvaziou de todo desejo e reduz-se ao próprio último ou primeiro pulsar. A dor de dentes que perpassa esta histór...

Palavra do Poeta - Dia 23 de dezembro

Acesse a Parte I Acesse a Parte II 23 de dezembro Quando cheguei no trabalho, Douglão saiu chorando do escritório do chefe. Quando ele me viu, veio em minha direção, com um olhar que mataria um animal. Deu um berro e esmurrou minha cara com um soco que só vi em filme de gringo na tevê. Mathias conseguiu puxar Douglão para trás enquanto ele gritava: “Imbecil! Babaca!”, além de outras baixarias. Uns seguranças do shopping viram a confusão e levaram o Douglão. Não estava entendendo nada, até que o chefe veio me ver. Ele tinha demitido Douglão. Começou com uma série de desculpinhas como: “corte de gastos”, “tempos de crise” e “dificuldade econômica”. Entendi então que eu fui o responsável pela demissão de Douglão. Abaixei os olhos, concordando com o chefe. Pior que Douglão era um cara legal. Fui lavar o rosto, a mando do chefe, para tirar a mancha de sangue que escorria do meu nariz. Quando sai do banheiro, já tinha um cara no lugar de Douglão. No meio da tarde, o chefe me cha...

Cidade Invisível - Folclorização e Epistemicídio

 Quando foi anunciada, há cerca de um mês, tive minhas dúvidas quanto à série "Cidade Invisível". Um romance policial clássico, tendo como protagonista um oficial da Delegacia de Proteção ao Meio-Ambiente do Rio de Janeiro, que investiga a disputa de terra entre uma empresa e os cidadãos pacatos da Vila Toré... mas com um elemento a mais, que a diferencia das demais séries: a utilização de elementos e personagens do "folclore" brasileiro. E é nessa questão que as principais discussões quanto à produção se deram, questionando o que tal liberdade criativa significa em um contexto sociocultural. Então, mais intrigado pelos debates do que pela premissa em si da série, rendi-me a ela. Não há nada de novo em Cidade Invisível. E não digo isso necessariamente como uma crítica. Eric (Marco Pigossi) é o policial clássico, amargurado pela perda da esposa e se vendo obrigado a restabelecer um vínculo emocional com a filha, em cenas clichês de sentimentos desestabilizados por tr...