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A Morte de Pedro Gonçalves - Parte II

O Bebum

Sílvia e Fernando chegaram no local do crime quinze minutos após a denúncia que receberam. Uma senhora gorda, com um vestido rosa e espalhafatoso, esperava sentada na rua, segurando em seus braços flácidos um adorável poodle. Os policiais saltaram da viatura e foram ter com a velha.
Fernando notou que a senhora tremia, de frio ou de medo. Aproximou-se com um cobertor velho que fora esquecido na parte de trás do carro e a cobriu. 
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Dona Maria das Dores passeava todos os dias com seu cachorrinho, Tite, por aquelas ruas. Apesar da noite ser perigosa, Dona das Dores apenas passeava de madrugada, por não gostar de pessoas ao longo de seu caminho. Era uma senhora reclusa e muito delicada, sem qualquer laço de natureza humana com alguém a ponto de notarem sua falta.
No entanto, após terem passado por uma praça, a senhora ouviu um estrondo e um grito. Desesperada, correu para se esconder. Entretanto, não havendo nada ou nenhum lugar para ir, correu para o centro da praça, onde pôde se ocultar dentro de um chafariz vazio e desfuncional. De lá, pegou o telefone e ligou para a polícia. Apenas quando julgou ser extremamente seguro sair do esconderijo, permitiu-se espreitar para fora do chafariz. 
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A praça não estava muito longe de onde conversavam. A velha estava apavorada e cansada. Sua casa era em algumas quadras longe dali, e agora tinha medo de caminhar sozinha. Após preencherem todos os relatórios do questionário, Sílvia e Fernando decidiram quem iria levar a velha para casa e quem iria iria procurar pelas pistas do suposto crime, que até onde sabiam poderia ter sido simplesmente uma falha no cano de descarga de algum carro, ou algum adolescente idiota e bêbado que acha engraçado sair gritando em todos lugares em onde anda.
Fernando jogou uma moeda para o alto enquanto escolheu um dos lados. Restou a Sílvia Coroa. Deu Cara. A policial entrou com a senhora na viatura e partiu, deixando Fernando sozinho na rua.
O homem tirou de sua farda um pacote de cigarros. Na caixa, uma foto de uma família destruída pelo vício. Um homem - se é que ele ainda pode ser considerado um - estirado na cama, agarrava com suas últimas forças a mão da filha. O olhar de culpa e tristeza no rosto daquele ser penetravam na alma de Fernando. Resolveu guardar o cigarro. Sofreria com a abstinência.
Caminhou até a praça, bem perto de onde estava. Via o chafariz no qual a velha se referira anteriormente e tentou entender o panorama geral daquele centro.
Era uma praça que conectava quatro ruas amplas e arborizadas. No entanto, toda aquela região parecia estar completamente deserta. Afinal, como nenhum morador teria ouvido o estrondo de um tiro? Caminhou um pouco ao redor da praça, conhecendo superficialmente as ruas e as casas. Procurava por um beco. Isso explicaria o mistério. O tiro poderia ter sido abafado com algum material improvisado, e o grito poderia ter sido igualmente abafado, de forma com que apenas a velha, muito próxima ao local do crime, ouvisse o estampido. Mas como o criminosos, isso é, considerando realmente que tenha havido um crime, poderia abafar um tiro? A região era cercada de edifícios e casa. Achava difícil que ninguém mais tivesse escutado o estrondo descrito pela testemunha...
Até que Fernando encontrou uma ruela, que levava até um beco pequeno, sujo e estreito. Ouviu, então, um som vindo de uma lata de lixo, no fundo do beco. Sacou a arma. Tremia pelo nervosismo e pela abstinência.
A lata se remexeu. Tinha alguém ali, com ele. Avançava cautelosamente, calculando cada passo que fazia. Uma gota de suor escorreu pela sua testa. Apontou a arma na direção da lata.
Fernando lembrou-se do treinamento. Tentava manter a mão firme. Se estivesse com o cigarro, teria a oportunidade de dar um bom tiro. A empunhadura da pistola lhe causava uma sensação estranha na palma da mão. Sentia um formigamento na região. Olhos atentos, esbugalhados, tentando absorver o máximo de informações do ambiente.
Então, um gato preto saltou da lata, derrubando-a, e correu em direção da rua, vencendo a noite. Fernando suspirou, sentindo toda a tensão correr pelo seu corpo. Deus, como estava desprotegido! A negligência poderia ter lhe tirado a vida. Guardou sua arma e analisou o local.
O gato havia espalhado lixo por todos os lados, impedindo uma boa visualização do local. Empurrou o lixo com o pé. Plásticos, documentos queimados, notas fiscais... pensou em como as pessoas se desapegam facilmente daquelas pequenas provas de sua existência. Então empurrou cacos de vidros de uma garrafa quebrada. Molhou o sapato com o conteúdo dela espalhado pelo asfalto. Xingou baixinho e trouxe o sapato para si, para analisar o estrago. No entanto, notou nele manchas avermelhadas e viscosas. Era sangue. Pegou uma lanterna da cintura e viu.
Dessa vez, xingou bem alto.
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Na delegacia, o telefone tocou. Cavalcante atendeu. Ouviu a mensagem. Desligou.
Era realmente um homicídio. Aparentava ser apenas um bêbado, como previra o delegado. Contudo, Sílvia afirmou reconhecer a feição da vítima. Se estivesse certa, morrera Pedro Gonçalves, um escritor maldito e desgraçado, que escrevia sobre sexo, drogas, álcool e assassinatos de prostitutas e bêbados.
Cavalcante prontamente acionou a perícia. Preparou os documentos e passou as horas que se seguiram preenchendo documentos e recebendo ligações. O corpo foi examinado e transportado para os legistas, a zona do crime delimitada e todos os procedimentos foram seguidos.
Após Cavalcante terminar de preencher todos os documentos, já era próximo das seis horas. Anotou alguns bilhetes e memorandos para o delegado que viria ocupar as próximas doze horas de carga horária e levantou-se para esticar as costas. Esperou alguns minutos de pé, até a chegada do delegado Ernesto. Trocaram algumas palavras e se despediram. 
Agora, torcia para não ter que ser responsável pelo caso. Estava farto de bêbados e indigentes.
Entrou em seu carro, parado no estacionamento da delegacia, e deu partida no motor, enquanto via o sol dando vida à cidade. Não gostava daquele movimento todo. Cavalcante sempre preferiu a clausura ao convívio social. Pensou no relato dos agentes. Correu pela cidade até chegar a casa, um pequeno apartamento no centro.
Estacionou, saiu do carro e entrou no edifício. Infelizmente, trazia consigo o trabalho. Ficou pensando nas informações que Sílvia e Fernando lhe passaram. Um maldito escritor. Excluído dos luxos da vida comercial. Alcançou seu apartamento e abriu a porta. Pedro Gonçalves... valeria a pena ler sobre o sujeito? Jogou-se na cama e dormiu como não dormia há meses.


Fim da Parte II
Acesse a Parte III 
Texto de Lucas Barreto Teixeira
Baseado nas ilustrações de Oswaldo Goeldi

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