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A alegoria do grande circo místico

O uso de alegorias é uma prática recorrente na construção de narrativas. Ao traduzir a realidade em uma ficção, o artista, por meio de metáforas, é capaz de dialogar com o público de forma subjetiva, realçando certas impressões pessoais, destacando apenas o essencial para a compreensão da mensagem vinculada ao objeto artístico. Nesse sentido, artistas de todos os ramos do século XX buscaram novas formas de se expressar, criando escolas vanguardistas e conceitos de abstração poética. No cenário brasileiro, tivemos grandes obras cinematográficas capazes de transmitir mensagens por meio dessas abstrações, reunidas em torno do Cinema Novo, cujo maior nome é, sem dúvidas, "Terra Em Transe", de Glauber Rocha. No filme, o país fictício latino-americano de El Dorado serve como palco de um grande movimento político, criticando o status político brasileiro e mundial. Décadas depois, o mesmo sentimento impresso pelos cineastras permanece na mentalidade dos criadores do Cinema Novo, como Cacá Diegues expressa em seu mais recente filme, "O Grande Circo Místico".

Cacá Diegues é um dos fundadores do Cinema Novo e recentemente membro imortal da Academia Brasileira de Letras. 
A produção do "Grande Circo Místico" reflete os principais pontos explorados ao longo do filme. Baseado no poema homônimo de Jorge de Lima, já previamente adaptado ao teatro por Chico Buarque e Edu Lobo, em 1982, teve de ser adiado diversas vezes desde sua concepção inicial, formatada há mais de cinco anos. Percebe-se pelo roteiro que Diegues teve tempo de amadurecer a obra até obter um resultado que lhe melhor satisfizesse, entregando à história do cinema nacional um filme primoroso e denso em conceito.
A longa retrata a história de uma família que se inicia no circo e permanece nele vinculado pela herança, sem haver forma de se separar um de outro. Fred, o primeiro personagem apresentado e responsável pela aquisição da companhia circense, vivencia um romance com Beatriz, dançarina apaixonante, iniciando a herança do amor pelo espetáculo. Entretanto, após hediondo acidente responsável pelo parto do filho do casal e a sucessiva morte da artista, a tragédia parece acompanhar os laços familiares, criando uma relação entre a propriedade, os filhos e a morte.
Celavi, que inicialmente se mostra como cerimonialista dos espetáculos, passa a acompanhar as diferentes gerações dos proprietários, adaptando-se à época vigente e protegendo os valores mágicos e belos por trás das atuações. Personificando o próprio circo, torna-se narrador da saga, cruzando as guerras mundiais, a corrida espacial, o regime militar brasileiro até alcançar o século XXI. Ao longo das décadas, a tragédia aprofunda um sentimento nefasto de desprendimento e desencanto do mundo, retratado no próprio trato do material da propriedade, cujos desgaste e negligência geram um cenário desolado. No entanto, existe sempre, no picadeiro, um valor universal, capaz de encantar até o mais amargurados dos herdeiros, evidenciando o caráter místico do circo. Ao fim da longa, quando parece não haver mais nada naquela realidade cinza, feia e suja, as personagens encontram tal valor perdido em uma cena emocionante por conta da inocência e do desapego das questões materiais, responsáveis por levar o circo até aquele estado, onde a visão mercadológica substituiu a arte; e a amargura tirou a beleza da vida.

Celavi é a personificação do circo, buscando sempre proteger o valor místico ao redor do espetáculo. O nome é um jogo de palavras com a expressão "C'est la vie" (é a vida, em francês), atribuindo às tragédias familiares um sentido natural e recorrente.
 Em uma análise literal, o longa parece fraco e superficial, com uma história repetitiva e fraca. No entanto, a genialidade por trás dele está exatamente no uso das metáforas, criando uma grande alegoria da vida e da própria arte moderna. O próprio cometa Halley, que aparece logo na primeira cena e próximo ao fim, ilustra o ciclo da vida que todos devem passar. A morte dos familiares (os homens de parada cardíaca e as mulheres ao buscarem prazer) ressalta ainda a ideia passada de que elementos passados serão repetidos, em uma concepção determinista dos fatos.
Além disso, o próprio circo aparece como metáfora da forma como os personagens interpretam o mundo ao redor. Antes; a vida era bela e as oportunidades se desdobravam diante da capacidade artística dos circenses; então, a arte é expulsa da vida por conta de uma nova visão mercadológica de gestão de gastos; até que a vida se torna tão desbotada e fora de si que as drogas sintéticas aparecem como forma artificial de se escapar da realidade opressiva e torpe; para, enfim a arte e a beleza da vida serem resgatadas após o completo desprendimento moral e humano da sociedade, representada pela plateia, que ao término do filme aparece escassa e desinteressada.


"O Grande Circo Místico" é, como já diz o título, grandioso, mágico e intrigante. Assim como a vida, o espetáculo é sempre rodeado de mistério e truques, responsáveis pelo encantamento de uma plateia sedenta pelo novo e pela catarse. A alegoria de Cacá Diegues remonta, além de todo o ideal artístico do Cinema Novo, o sentimento, perdido ao longo das gerações, de apreço pela arte e pelo lado belo da vida. Independente das tragédias individuais, a arte é eterna, responsável pela cura de nossos demônios e completa em si. O resto é, simplesmente, a vida, o ciclo natural das coisas e a eterna busca do homem por si mesmo.

Texto de Lucas Barreto Teixeira 

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