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A Loucura pelo Incompreensível em "O Farol"

2019 foi um grande ano para a arte cinematográfica. Em esfera nacional, "Bacurau" e a "Vida Invisível" não apenas surgiram como agradáveis e impactantes surpresas, realizando profundas reflexões políticas, históricas e sociais, como também representaram o país em importantes festivais, como em Cannes, onde foram aclamadíssimos. "O Irlandês", "Era uma vez em... Hollywood", "1917", "Nós", "Dois Papas", "Coringa" foram, também, alguns dos grandes filmes que marcaram o ano, culminando no Oscar, onde o incrível "Parasita" foi agraciado com o grande prêmio da noite - o de melhor filme. Contudo, muito já foi dito acerca de tais obras, e pouco teria a acrescentar, por exceção de "A Vida Invisível", cujo livro base, obra de Martha Batalha, ainda será abordado em futuro texto. Gostaria, portanto, de tecer algumas palavras sobre um filme tão injustamente esquecido pela crítica que, apenas pela estética empregada, conquistou-me de imediato. Falo, é claro, de "O Farol", longa de Robert Eggers com Robert Pattinson e Willem Dafoe.


No final dos anos 1890, em uma misteriosa ilha na Nova Inglaterra, dois homens se enclausuram para cuidar das manutenções de um farol e as instalações secundárias da grande construção. Em um cenário decadente e insalubre, o jovem marujo é explorado pelo velho capitão, louco e angustiado, responsável pela luz do farol. Nos últimos dias de seus serviços, entretanto, uma forte tempestade os força a permanecerem presos na ilha, buscando refúgio no álcool e nos estranhos acontecimentos passados no claustrofóbico ambiente em que são confinados.
Além da primorosa cinematografia, o grande diferencial na longa está na forma como a narrativa é contada. Não existe, aqui, um grande evento para tornar a história mais relevante do que aparenta ser, mantendo a coerência temática até o final. O drama psicológico, originado a partir da solidão, da reclusão e da insalubridade, encontra seu caminho a partir de lendas antigas do mar, que ganham vida na mente insana de dois homens perdidos e desesperançosos. Nesse sentido, o monólogo performado por Willem Dafoe reflete de forma pontual sua crença pela vingança das forças sobrenaturais das divindades do mar.

É a partir de tais crenças que a mente do jovem começa a se povoar, temendo ter despertado a fúria de algo incompreensível, prendendo-os à ilha. Vigiados sempre pela imponente luz do farol, delegam a ela o inalcançável, o belo supremo, a salvação e, atormentado por seus desejos, passam a se odiar, em um egoísmo moral, buscando sempre o conforto da luz, até se perderem em meio à loucura. A loucura à serviço da narrativa opera, dessa forma, como fonte de angústia, fazendo o espectador sentir-se frágil, em meio aos perdidos, incômodo. Um dos maiores do ano, "O Farol" trata de temas universais a partir de uma narrativa introspectiva, pessoal e trágica.

Texto de Lucas Barreto Teixeira


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