Pular para o conteúdo principal

Snyder Cut - Vale a pena?

 O gênero de filmes de herói está saturado há tempos. Com pouco espaço para inovação, tendo os holofotes sempre voltados às produções de grandes estúdios, é difícil ver algo de novo. Dessa forma, o mercado parece se alimentar de grandes eventos, seja com "Vingadores: Ultimato", que se transformou em algo além de um mero filme, ou com o lançamento recente do corte de "Liga da Justiça" realizado por Zack Snyder, aguardado e motivado por uma legião de fãs.

É difícil não ter ouvido falar do chamado "Snyder Cut". O que começou como uma espécie de brincadeira com o fiasco de "Batman vs Superman", de 2016, ganhou forças quando "Liga da Justiça" estreou nos cinemas, em 2017, apagando a visão criativa do diretor para apelar a um produto mais mastigável, com o corte final feito por Joss Whedon, diretor do primeiro filme dos "Vingadores", de 2012. Ao consumir o produto final, cheio de falhas, inacabado e sem coesão, no geral, o público se questionou nas redes sociais sobre o quanto do produto original foi modificado pelo estúdio para chegar em tal nível de catástrofe. Então, quando em 2020 foi anunciado o lançamento do corte idealizado pelo diretor original, fãs se emocionaram, exaltaram e comemoraram. Hoje, inclusive, os mesmos fãs dizem que não há nada que chegue aos pés desse filme, modificado e remendado, colocando-o em um patamar elevadíssimo.
Vamos por partes. Não, o corte de Snyder não é a obra mais genial de todos os tempos. Longe de ser, aliás, mesmo colocado ao lado de outros filmes do gênero. No entanto, é sim uma versão melhorada do produto original. Colocar dessa forma chega a ser uma injustiça com o diretor, aliás. A direção de Whedon é sem inspiração, o roteiro é uma bagunça e a montagem é incoerente em todos os momentos. Isso porque não quero entrar no mérito do bigode de Henry Cavill sendo apagado digitalmente... (quem estou querendo enganar? Óbvio que quero falar disso, inclusive corto o parágrafo aqui com a tenra lembrança do icônico momento nas telas).

  Colocando todas as falhas do original, o corte de Snyder representa sim uma melhoria significativa. O enredo faz sentido, personagens como Cyborgue (Ray Fisher) e Lobo da Estepe (Ciarán Hinds) finalmente apresentam algum tipo de personalidade e desenvolvimento, e a obra em um geral é bastante concisa e coerente. Claro, como estamos falando de Zack Snyder, é possível destacar seus méritos de sempre, como o emprego competente da câmera para compor quadros distintos e a composição das cenas de ação. No entanto, suas falhas de sempre aqui também estão presentes, criando vários momentos arrastados ao longo da narrativa, estendendo cenas desinteressantes com velocidade reduzida, e como um geral criando uma atmosfera prepotente ao redor da película que pode desagradar o público.
A grande questão é: valeu a pena? Antes do lançamento do corte, confesso que a ideia me desagradava, em vários sentidos, a principal sendo meu desinteresse quanto a qualquer elemento do filme. Mesmo com ajustes, não via como ele poderia ser algo além de medíocre. Agora, contudo, fico feliz que esse processo tenha sido possível. Alegra-me saber que fãs estão felizes e que profissionais do setor conseguiram rever seu trabalho para compor uma obra com melhorias tão significativas. Ao mesmo tempo, nada justifica um filme ter quatro horas. Pessoalmente, gosto de obras mais contidas, e não fui capaz de ver o filme inteiro de uma vez só. Mesmo com a divisão interna de capítulos, que facilita saber quando pode-se pausar e esticar as pernas, há muito excesso aqui. Tenho a impressão que Snyder quis colocar absolutamente tudo que pensara originalmente, estendendo o filme em uma proporção caótica. Aliás, o epílogo se arrasta por um tempo muito grande, indo de um fim satisfatório e emotivo para um momento desinteressante, desnecessário e apelativo aos fãs mais fiéis do diretor. Colocando todas essas questões, penso que para mim o filme valeu a pena, mais porque pude escrever o presente texto do que pelo gosto de assisti-lo, de fato.

Texto de Lucas Barreto Teixeira


Comentários

  1. The movie will make us connected with Victor Stone and Clark Kent very deeply. I felt goosebumps and even got a bit emotional at a few points. It's a must watch for all superhero movie lovers. The release of this movie read about on PortalulTauTV.net is revolutionary and hats off to Zack Snyder. Now I'm eagerly waiting for the Synderverse to be restored.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

The Good Place e o realismo moral

 Esses dias, resolvi rever o excelente seriado "The good place", e com isso todos os sentimentos gerados na época de seu lançamento vieram novamente à tona. Claro, o texto cômico por si só é primoroso, misturando personagens extremamente cativantes com situações absurdas, brincando sempre com o espectador e a própria escrita, culminando em um clássico moderno. O que me motivou a escrever tal texto, contudo, foi a força da analogia criada com a série, em especial com sua mensagem final de transformação. Tendo a temática em mente, lembrei-me de outros casos onde o realismo ético é desafiado, levando-me a uma série de pensamentos que gostaria de deixar escrito, esperando, talvez, algum tipo de discussão. "The good place" é uma série tão simples quanto é complexa. Em uma idílica pós-vida, quatro almas se encontram em uma espécie de paraíso, sendo recompensados pelas virtudes enquanto vivos. Entretanto, Eleanor (Kristen Bell) percebe estar no lugar errado, visto nunca te...

A hora da estrela - A epifania da morte

Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré- história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou. Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho.  Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré- pré-história já havia os monstros apocalípticos? Se esta história não existe passará a existir. Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois juntos – sou eu que escrevo o que estou escrevendo. Deus é o mundo. A verdade é sempre um contato interior inexplicável. A minha vida a mais verdadeira é irreconhecível, extremamente interior e não tem uma só palavra que a signifique. Meu coração se esvaziou de todo desejo e reduz-se ao próprio último ou primeiro pulsar. A dor de dentes que perpassa esta histór...

Em defesa de Skyward Sword

 Não é todo dia que sua franquia favorita faz 35 anos. E não por acaso aproveito essa data para falar ainda mais sobre The Legend of Zelda, que particularmente sempre me dá assunto para falar (dá uma olhada neles aqui ,  aqui e aqui também). Então hoje tive a súbita vontade de falar sobre Skyward Sword, último jogo da série antes de Breath of The Wild, lançado há dez anos atrás no Nintendo Wii. Tá, talvez não seja uma vontade tão súbita assim, afinal a Nintendo anunciou uma versão em HD para o Switch, que foi recebido de uma forma bem pouco amigável online. Aparentemente, o título é visto como um dos piores da saga, e amplamente criticado pelo público geral. Nesse sentido, quis abrir um pouco meu coração para falar do jogo que me introduziu a essa tão maravilhosa série. Skyward Sword é um jogo extremamente simbólico. Simbólico por ser a culminação de 25 anos de Zelda, simbólico por sua ousadia nos aspectos de controle e simbólico por seu impacto. Mas vamos por parte. Para a ...