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"O Senhor agora vai mudar de Corpo" - Esse est Percipi

Após sofrer um acidente vascular cerebral, o ilustre escritor Raimundo Carrero tinha apenas uma preocupação em mente: ainda seria capaz de escrever? Perdera toda a sensibilidade na parte esquerda de seu corpo, além de ter passado por uma cegueira temporária, causando-lhe um verdadeiro sentimento de terror. Afinal, o que seria ele sem poder criar em sua literatura? Em 2015, cinco anos após o AVC, tendo já publicado um romance que lhe renderia a semifinal do prêmio português Telecom , Carrero publica "O senhor agora vai mudar de Corpo", uma novela em que projeta suas angústias, seus temores e sua percepção acerca do evento. Contudo, não obtendo fluidez com uma narrativa autobiográfica, optou por uma escrita alegórica, tentando afastar-se ao máximo de si mesmo, a fim de conseguir entender a si mesmo. "O Corpo é a única certeza que nos acompanha do nascimento até a morte". A frase de Clarice Lispector, epígrafe do livro, já antecipa o tópico principal a ser a...

A Vida na República de Platão

O filósofo grego Platão é, sem sombra de dúvidas, um dos maiores e mais importantes pensadores da antiguidade, e uma das maiores influências da história da filosofia. E é em sua obra República que o autor expressa a maior parte de seu pensamento, ilustrando sua concepção de realidade a partir da criação de um Estado utópico. Dessa forma, compara o funcionamento do Estado com o comportamento dos indivíduos. Aqui desejo realizar algumas suposições caso o Estado fosse implementado, analisando com um olhar contemporâneo e mais amplo do que poderia ser realizado à época. Em outras palavras, vamos descrever como seria a vida dentro da República, enquanto analisamos a obra de Platão e entendemos um pouco mais de seu pensamento. Parte I – A divisão social No Estado descrito por Platão, existe uma estratificação social, dividindo os indivíduos em três classes, dependendo de seus interesses e suas aptidões, conforme a Alma se manifesta. Assim sendo, existe a classe mais abrangente, a...

O controle de massas pela ignorância

Há diferentes formas pelas quais um autor pode se expressar na literatura. O gênero fantástico, com suas incontáveis vertentes, estabelece uma realidade absurda, seja ela futurista ou mística, improvável ou verossímil, complexa ou simples, de modo com que um problema possa ser abordado de forma mais criativa, dinâmica e elucidativa. Nesse contexto, as distopias foram formadas a partir da percepção política e social de certos autores em relação ao seu tempo, em que governos tiranos cerceiam as liberdades individuais, questionar já não é mais permitido, a a vida se torna fútil e patética. Dentre a vastidão de obras que se apoiam nesse princípio, três clássicos da literatura não apenas definem o gênero como também estabelecem uma série de correlações entre eles, criando uma vasta e complexa crítica à sociedade de nossos tempos. Da esquerda para a direita, Aldous Huxley, Ray Bradbury e George Orwell, respectivamente autores de "Admirável Mundo Novo", Fahrenheit 451" e ...

A Lenda do Solitário Herói

Com o anúncio do remake de "The Legend of Zelda - Link's Awkening", na última semana, me vi refletindo a cerca da história da franquia, lembrando dos jogos lançados desde 1986, que tecem uma gloriosa narrativa, envolvente e profunda. Após relativa reflexão, recordei-me de algumas ideias tiradas das longas horas que passei desfrutando nas pradarias selvagens de Hyrule, e percebi o quão profunda uma experiência com os jogos de Shigeru Miyamoto podem ser. Nesse sentido, escolhi compartilhar algumas dessas reflexões por aqui, alçando um entendimento maior e mais amplo dessa bela obra. O Herói Solitário Após o terrível demônio Ganon sequestrar a princesa de Hyrule, Zelda, cabe a Link, o grande herói da profecia, resgatá-la das garras do vilão e fazer a paz retornar ao reino. Para tal, entretanto, o herói deve encontrar a Triforce, de onde emana o poder dos deuses. Essa é a sinopse do primeiro "The Legend of Zelda", lançado em 1986 para NES. No jogo control...

Caderno do Escritor 02 - Análise de "O Sol é Para Todos", de Harper Lee

No vídeo de hoje, o autor Lucas Barreto Teixeira tece breves comentários sobre o vencedor do Prêmio Pulitzer, "O Sol é Para Todos".

Glass e discriminação pela loucura

Continuação de Corpo Fechado e Fragmentado , Vidro ( Glass , no original), encerra a trilogia de M. Night Shyamalan englobando novos elementos para sua interpretação cinematográfica do universo fantástico de quadrinhos de super-heróis. Ao ousar em seguir uma narrativa mais fantasiosa, sem abandonar o pseudo-realismo e o terror psicológico dos outros títulos, o diretor cria um desfecho modesto, sem grandes pretensões, embora encerrando com justiça a trama criada ao longo de 19 anos, com a estreia de Corpo Fechado . Contudo, Shyamalan, de forma sutil, introduz uma interessante discussão ao redor de ideias antigas, que foram reintroduzidas por filósofos, autores e artistas, sobre liberdade e sanidade. O enredo de Glass é simples. Após os eventos do filme Fragmentado , David Dunn, personagem de Bruce Willis conhecido por ser um vigilante das ruas de Filadélfia, vai atrás de Kevin (James McAvoy), o homem responsável pela abdução e consequente assassinato de jovens adolescentes. No...

Irmão do Jorel - Um contraste existencial

"Queria apenas tentar viver aquilo que brotava espontaneamente em mim. Por que isso me era tão difícil?"  Essas palavras, encontradas logo no início do romance " Demian ", de Herman Hesse, ilustram, com exatidão, a premissa principal da animação nacional "Irmão do Jorel". Passando-se em uma cidade pacata do Brasil, o desenho retrata a infância de irmão do Jorel, um garoto que, apesar de sua criatividade e sua originalidade, vive sempre à sombra de seu irmão, Jorel, um adolescente popular, galanteador e verdadeiro ídolo dos habitantes locais. Vivendo assim, incapaz de impor sua personalidade, sendo conhecido apenas por sua relação familiar e não por sua individualidade, irmão do Jorel tenta lidar com suas frustrações, seus anseios e suas angústias. Apesar de ser um desenho infantil, "irmão do Jorel" é uma obra repleta de simbologias, metáforas e interpretações socioculturais da realidade brasileira. A organização militar, retratada por p...