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El Camino - Análise Crítica

Seis anos após o último episódio de "Breaking Bad", Vince Gilligan retoma as cenas finais de "Felina" para encerrar o arco de Jesse Pinkman (Aaron Paul), deixado em aberto na série. Em "El Camino", o diretor e idealizador da série pretende explorar a fundo um dos personagens mais icônicos de sua obra dividida em três partes: a série principal, voltada no químico frustrado Walter White (Bryan Cranston), em sua jornada para se tornar o maior fabricante de metanfetamina dos Estados Unidos, adotando a alcunha de Heisenberg; a série "Better Call Saul", desenvolvida a partir das perdas do advogado Jimmy McGill (Bob Odenkirk) até se transformar no falastrão Saul Goodman; e, agora, a longa voltada ao desfecho do ex-aluno e parceiro de negócios de Walter. Diferente de "Better Call Saul", que narra os acontecimentos que antecedem "Breaking Bad", "El Camino" não é um filme que funciona sem a série principal. Com cenas ...

Joker: A imoralidade da justiça

Discutir Joker, longa de Todd Phillips, adaptação da história do vilão mais icônico dos quadrinhos da DC, sem cair em redundâncias parece ser desafiador. Afinal, antes mesmo de estrear, o filme foi alvo de críticas e ataques sensacionalistas, alegando que a obra motivaria ataques e surtos coletivos. Ao retratar um vilão sem um herói para contrapô-lo, a narrativa tende a se colocar em uma posição maniqueísta. Afinal, quando vimos Batman e Coringa se enfrentando no Cavaleiro das Trevas, segundo filme da trilogia Nolan do vigilante detetive, as discussões morais são mais profundas, certeiras e problemáticas. Sem um oposto, o Coringa de Joaquin Phoenix tem mais voz e mais liberdade. Quais foram, então, os desafios de retratar tal personagem em tal inédita narrativa? "Joker" retrata uma cidade de Gotham em período eleitoral, caótica e desordenada, e com uma intensa polarização respaldado no cenário socioeconômico vigente. Greve de lixeiros, cortes estruturais em programas...

Once upon a time in... Hollywood - Análise Crítica

Walter Benjamin defendia que a Aura de uma obra de arte é definida pela historicidade e pela autoria envolvida no processo criativo. Não basta uma obra seguir decisões estéticas do autor - afinal, ela deve refletir o momento histórico em que é criada. Não é difícil identificar a autoria nos filmes de Quentin Tarantino: seus exageros, diálogos fluidos, câmeras estratégicas, atuações pitorescas... contudo, ao falar sobre o período de sua obra, encontramos uma curiosa relação entre seus filmes. Mesmo com obras de estilo "western", como Django Livre e Os Oito Odiados, referenciando muito da cultura oriental, como Kill Bill, Tarantino não esconde suas influências da literatura Pulp, seja no vocabulário quanto na própria construção de seus personagens, que muitas vezes aparecem em sentido anacrônico. Agora, o diretor parece ter um objetivo claro em mente: direcionar sua criação para o período que mais influencia suas obras. É 1969 e Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) acaba de...

Você já se questionou sobre a natureza de sua realidade?

Na verdade, é difícil encontrar alguém que responda negativamente tal questão. Um dos temas mais profundos de nossa vã filosofia, inspiração fatal às artes. Seja em um sonho delirante ou em um ambiente confinado e controlado pelo autoritarismo e pelas convenções sociais, aquilo que se vê e se percebe pode não ser o absoluto e o real. Afinal, presos na convicção de sermos reais, existimos apenas por nos importarmos demais. O QUE É SER? Acorda, levanta-se, limpa-se, trabalha, dorme. Um ciclo de repetição - a rotina - funciona enquanto narrativa diária e cotidiana para os homens. Truman, na longa "O Show de Truman", não é nada além de sua rotina, cercado pelos medos embutidos por terceiros, impedindo-lhe de enxergar além do básico. Com um propósito bem definido e delimitado pelos seus ciclos sociais e culturais, existe em si. No entanto, nada daquilo é escolha própria. Apesar de ser, é como alguém determinou, independente de sua escolha. Enquanto ignorante quanto a is...

O policial filósofo

Na República de Platão, os indivíduos viveriam condicionados e regidos pela lei de um soberano, um Rei, desde que seguisse as premissas básicas do pensamento racional e lógico. Em uma utopia governada por um rei filósofo, relativa paz reinaria no corpo social, protegido por indivíduos selecionados com critérios robustos, os defensores da sociedade. No entanto, quando a sociedade falha e a política é fútil, não existe filósofo ou guerreiro capaz o suficiente de frear o cinismo e o pessimismo humano. Nesse cenário, Luiz Alfredo Garcia-Roza surgiu com um personagem que não apenas vivencia tais conflitos como também resgata o ideal filosófico no cotidiano. Quando o ordinário é a violência descabida, e assassinatos, roubos e agressões compunham o quadro rotineiro, são os pequenos casos que chamam a atenção. Com sua série de livros protagonizada por Espinosa, um policial moralista e direito, o autor não aparenta estar interessado em escrever sobre a brutalidade e o potencial destru...

The Boys e a sociedade de consumo

Em uma época em que super-heróis estão na moda, e o imaginário da cultura pop especula sobre as gerações que ainda hão de vir para prestigiar o gênero, "The Boys" aparece como uma grata surpresa em contraponto a diversos alicerces estabelecidos em relação à estética proposta. Já em sua primeira temporada, levanta questionamentos pertinentes não apenas ao gênero quanto também ao mercado desses heróis, realizando uma leitura cínica e crua da política e da sociedade que consome esse produto em exaustão. Afinal, a obra propõe que nada é sagrado quando tudo é consumo. Baseada nos quadrinhos de Garth Ennis e Darick Robertson, a série retrata uma sociedade distópica em que uma grande corporação explora direitos de imagens de super-heróis, vinculando propaganda e vendendo ideologias e discursos políticos, enquanto os indivíduos inseridos em tal sociedade idolatram aqueles que passam a ser considerados "deuses" aos olhos dos mortais. Satirizando a atual predisposição d...

Criação e Desconstrução - Uma Leitura de Mad Men

Cinco anos após seu término, ainda há muito a se falar sobre "Mad Men". Com suas sete gloriosas temporadas, a série alcançou, com muito mérito, a sua posição dentre as maiores séries de todos os tempos. Protagonizado por Don Draper (Jon Hamm), passa-se em uma agência de publicidade entre os anos 1960 e 1970, perpassando pela história enquanto os diferentes personagens da trama vivem em uma espiral de crise artística, social, midiática, política. Para descrever Mad Men em linhas gerais escolho me apegar às premissas já apresentadas no piloto do seriado. Don é o arquétipo do homem tradicional norte-americano constituído pelo senso comum. Pai de duas crianças, mora com a esposa no subúrbio de Nova Iorque, onde trabalha na empresa de publicidade "Sterling Cooper". Sendo um dos mais brilhantes diretores de criação do mercado, é admirado e invejado, por sua carreira brilhante e vida perfeita. It's Toasty Don está sentado em um bar, onde seu alcoolismo in...